Caprichoso: cultura que Resiste

Com a pandemia da Covid-19 os setores da cultura foram os mais afetados. Os eventos pararam, os palcos esvaziaram, bailarinos ficaram sem dança, músicos ficaram sem som e o povo Caprichoso resistiu. “A cultura está viva porque o nosso boi se mantém vivo”, afirma o presidente do Conselho de Arte Ericky Nakanome.

Seriam tantos os motivos para desistir. Integrantes da Troup, CDC, costureiras, diretores que neste período além da covid- 19 enfrentaram a subida do nível dos rios, pois moram nas áreas alagadas e tiveram que abandonar suas casas, mas estão aqui trabalhando. Por conta disso, o Boi Caprichoso apresenta na noite deste sábado (26/06) na arena do bumbódromo o espetáculo Caprichoso: Cultura que Resiste.

A apresentação começa com um vídeo do Festival que não aconteceu com o espetáculo “Tempo de reflorescer”. Um momento que promete emocionar o torcedor que vai acompanhar a abertura do espetáculo azul e branco. Já na arena do bumbódromo a fé que move o artista azulado será exaltada em um momento alegórico. Quando o Caprichoso falará das águas de fé, das águas de esperança que engoliram casas, que limitaram a passagem da ilha, mas que são as águas que nos salvam. Durante o momento acontece a estreia do levantador de toadas Patrick Araújo na arena do bumbódromo.

A apresentação segue com a tradição do Caprichoso desde as lamparinas de Lioca que iluminavam os caminhos azuis desde a época da brincadeira em terreiros e quintais até aos atuais integrantes do grupo artístico. Será um momento de força emotiva para quem está com saudade de brincar de boi. O momento evidenciará o Boi Caprichoso com o tripa Alexandre Azevedo, a Sinhazinha da Fazenda, Valentina Cid, e o amo Prince do Boi.

A resistência da floresta estará evidenciada durante a apresentação, pois apesar das agressões ela resiste e no cantar do Caprichoso sempre esteve presente. O momento “Curupira: o espírito de resistência que habita em nós” traz uma alegoria do protetor das florestas com o beijar-flor que apresenta o item Rainha do Folclore, Cleise Simas.

A alegoria do “Ypupiara: a resistência cabocla das águas da Amazônia” traz as resistência das águas. É um momento do imaginário fomentado pelo cotidiano dos parintinenses que moram nas áreas alagadas da ilha. Do módulo surgirá a porta-estandarte do Caprichoso, Marcela Marialva, com o estandarte de resistência de artistas, de trabalhadores, de caboclos que suportaram até esse período muito delicado que nós estamos vivendo.

A Arara Azul é o modulo gigante que apresenta a cunhã poranga, Marciele Albuquerque, com o voo de liberdade, dos garimpos, da invasão. Os povos antigos da Amazônia acreditam que esta ave descende de seres divinos, responsável por ensinar aos homens saberes da arte, da dança, da fala e demais conhecimentos, que posteriormente são transmitidos de geração em geração.

O último ato do espetáculo azul e branco apresenta o “Ritual de Transcendência Yanomami: Terra Livre aos Povos Originários”, o qual narra o clamor dos espíritos sagrados a Omama pela vida dos seus irmãos, vítimas da ganância dos não índios. O momento é um claro manifesto contra a onda de devastação nas terras dos verdadeiros herdeiros da Amazônia, que seguem em sua luta diária de resistência.

Ao fim do espetáculo, a apoteose azulada transborda toda a emoção de quem dentro da arena representa os milhares de torcedores que estariam nas arquibancadas tomados pelo mesmo sentimento. É o momento em que todos os artistas celebram a vitória do boi Caprichoso e, neste ano, também expressam e cantam a resistência da cultura popular.