De todos os pedidos de patentes originadas a partir da biodiversidade brasileira, 94,8% são solicitadas por pesquisadores estrangeiros. Não falta mão de obra especializada no Amazonas para o desenvolvimento de bioindústrias. Dados como esses estão sendo debatidos no Workshop do Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA), intitulado “Da Biodiversidade à Biotecnologia: desafios e perspectivas”. O evento, que começou nesta quinta-feira (27) e se encerra na sexta-feira (28), conta com 11 minicursos, 11 palestras, uma mesa-redonda e reúne especialistas em áreas como a bioeconomia e a biotecnologia.

Na cerimônia de abertura, o diretor do CBA, José Luiz Zanirato, ressaltou o potencial econômico da biodiversidade amazônica. “O mercado global de flores ornamentais é da ordem de R$ 10 bilhões; o de cosméticos, R$ 68 bilhões e a microbiologia é de cerca de R$ 30 bilhões. Números como esses mostram que o CBA precisa ser visto como uma solução para mudança da matriz econômica do Amazonas. Enquanto isso, o Amazonas importa pescado para atender a demanda interna e o açaí ainda é cultivado de forma extrativista”, frisou Zanirato.

Em seguida, o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Luiz Antonio de Oliveira, fez um histórico do funcionamento do CBA desde a sua idealização. “O idealizador foi o professor Spartaco (Astolfi Filho), que conversou comigo sobre o CBA em 1999, num shopping em Brasília. A ideia original era que ele fosse criado no Inpa, mas por questão de falta de espaço físico se buscou outras soluções, incluindo a de que o prédio fosse feito na Ufam. Quando a SUFRAMA soube, comprou a ideia e graças aos esforços dela, nós estamos hoje aqui neste prédio”, relatou.

Para o pesquisador, o Brasil precisa valorizar a ciência para que iniciativas como o CBA não sejam desperdiçadas. “Sou pesquisador há 41 anos e em todo esse tempo uma prática se repete a cada crise econômica: a primeira coisa que é feita é o corte de recursos em ciência e tecnologia. Isso é uma grande evidência de falta de visão de longo prazo”, observa.

No entendimento de Oliveira, enquanto o País acha que faz um bom negócio deixando, por exemplo, de equipar laboratórios, fica mais distante de desfrutar da riqueza que poderia ser originada com pesquisas feitas a partir da biodiversidade. “Só na minha área, o estudo de enzimas, há um grande déficit de pesquisas. Conhece-se hoje cerca de 5,5 mil enzimas, mas a estimativa que haja cerca de 200 milhões. Estou orientando, por exemplo, uma pesquisa com bactérias que deglutam lactose e glúten. Por conta de pessoas alérgicas, trata-se de um mercado que movimenta R$ 25 bilhões em produtos”, conta.

Na visão do pesquisador, o futuro econômico da Amazônia passa pela bioeconomia e a implantação de um polo de bioindústrias. “Diferentemente de outras áreas, não faltam cérebros no Amazonas para atuar nas pesquisas com a biodiversidade. Temos um excelente curso de pós-graduação formando mestres e doutores em Biotecnologia. Vários deles estão hoje dando aulas em escolas de nível médio quando deveriam estar sendo utilizados no desenvolvimento de bioprodutos e na implantação de bioindústrias”, salientou.

Confira a programação do evento para esta sexta-feira:

08h – Exposição de Banners e Fotografias da biodiversidade amazônica

08h – Palestra: Biodiversidade, Biotecnologia e Bioprocessos (Olinda Maria Canhoto).

08h30 – Palestra: Arranjo Eco-Produtivo Local para a Produção de Unha-de-Gato (Uncaria tomentosa) no Amazonas (Sandra Zannoto)

09h – Palestra: Desenvolvimento e avaliação de segurança toxicológica de novos cosméticos e fitoterápicos amazônicos por métodos alternativos ao uso animal (Nádia Falcão)

10h – Palestra: Aplicação de matérias-primas regionais na elaboração de alimentos e cosméticos de elevado valor agregado (Maria Katherine Oliveira)

10h30 – Palestra: A trajetória da Cultura de Tecidos no CBA (Simone da Silva)

11h30 – Palestra: Nanotecnologia: Uma ferramenta para agregar valor aos insumos da Biodiversidade Amazônica (Mariângela Burgos de Azevedo)

14h – Palestra: Coleção Microbiológica do CBA e suas aplicações biotecnológicas (Ingrid Reis)

14h30 – Palestra: Determinação estrutural e quantificação de metabólicos de micro-organismos do bioma amazônico (Nélly Vinhote)

15h – Palestra: Bancos de dados de DNA: relevância e desafios (Márcia Neiva)

15h30 – Palestra: Desenvolvimento de bioprodutos por meio da fermentação (Priscila Ribas)

16h10 – Mesa-Redonda: A Biodiversidade e a Biotecnologia: integração para o Desenvolvimento Local

17h – Encerramento: Apresentação Regional (Música e Dança), Degustação: Produtos Regionais, Lembrança do evento: Distribuição de 120 mudas de orquídeas.

O Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA) é localizado na avenida Governador Danilo de Matos Areosa, 690, Distrito Industrial.

Texto/fotos: Enock Nascimento

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