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Da hegemonia no poder à impopularidade nas urnas, especialistas analisam derrocada do PT

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Como explicar a acachapante derrota eleitoral sofrida pelo Partido dos Trabalhadores nas eleições municipais deste ano? Por que o partido que governou o país por mais de uma década, para alguns de forma hegemônica, perdeu tantas prefeituras e tanto apoio popular?

De acordo com cientistas políticos e especialistas ouvidos pela reportagem, as causas que determinaram a derrocada petista foram, principalmente, os escândalos de corrupção protagonizados por lideranças da legenda, como no caso do Petrolão e do Mensalão, além do desgaste por conta do processo de Impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

O professor emérito da Universidade de Brasília, a UnB, David Fleischer corrobora a análise. “O envolvimento do partido, do PT, no ‘Petrolão’, na Lava jato. Outros partidos também foram envolvidos, mas o PT era o que tinha mais destaque, mais gente presa em Curitiba e mais gente com acusações no Supremo. Então isso repercutiu muito na mídia e muitos eleitores ficaram antipatizados com o PT. O impacto em cima do PT foi muito forte”.

Em 2012, o PT obtinha o terceiro maior número de prefeituras entre os partidos brasileiros, governando 630 cidades. Agora a legenda ocupa apenas o décimo lugar, entre todas as siglas, com 256 municípios. Para o escritor e Cientista Político Bruno Garschagen, o próprio sucesso do PT, em eleições anteriores, também contribuiu para o atual fracasso nas urnas. Ele explica o porquê. “Há um desgaste natural de qualquer partido ou grupo político que ascende ao poder, quando passa muito tempo exercendo um poder, seja no âmbito municipal, estadual ou federal. Então, há um desgaste natural com relação a isso”.

De acordo com Garschagen, o resultado das eleições deixou o PT ferido, mas não a beira da morte. Ele afirma que o poder conquistado pelo partido ao longo de sua história, era, até então, inimaginável para o eleitor comum e, por isso, mesmo com a derrota, a sigla ainda terá musculatura para resistir, pelo menos por enquanto. “O PT passou 30 anos construindo a sua militância, construindo um modo de operação até efetivamente conquistar o poder e depois aparelhar o Estado e usar o Estado como um instrumento a serviço do partido e não da sociedade brasileira. Então, achar que o PT está morto é um equívoco”.

Um dos instrumentos utilizados para a construção política do PT, de acordo com Garschagen, foi a elaboração do Foro de São Paulo, um encontro que reúne partidos de esquerda da América Latina e do Caribe, onde esses partidos elaboram políticas de cooperação para chegar ao poder, como confessa Lula em 2012, em vídeo enviado ao XVIII encontro do Foro. “Em 1990, quando criamos o Foro de São Paulo, nenhum de nós imaginava que em apenas duas décadas chegaríamos onde chegamos. Naquela época, a esquerda só estava no poder em Cuba. Hoje, governamos um grande número de países. Em tudo que fizemos até agora, que foi muito, o Foro e os partidos do Foro tiveram um grande papel que poderá ser ainda mais importante se soubermos manter a nossa principal característica: a unidade na diversidade”.

Antes das eleições, no dia 15 de setembro, o ex-presidente Lula disse em entrevista coletiva à imprensa que tinha “orgulho de ter criado o mais importante partido de esquerda da América Latina”. Mas de acordo com David Fleischer, Lula não esperava uma derrota eleitoral tão grande. O fracasso, segundo Fleischer, aliado ao afastamento da ex-presidente Dilma Rousseff, fez com que o PT perdesse força, inclusive, diante de outros partidos de esquerda da América Latina. “A derrota do PT nas eleições municipais, junto com o impeachment da ex-presidente Dilma, retira o Brasil da liderança desse grupo de países mais à esquerda da América Latina e também diminuiu muito a influência do Brasil, ou liderança do Brasil, no chamado Foro de São Paulo, que agrega partidos de esquerda do mundo inteiro, então esse Foro de São Paulo fica muito enfraquecido”.

Com o enfraquecimento do PT, toda a rede de partidos progressistas da América Latina deve ser prejudicada, podendo representar uma onda de vitórias eleitorais de partidos identificados com o centro e com a centro direita, acredita David Fleischer. “A Venezuela está em dificuldades terríveis, nós não sabemos exatamente o desfecho. Equador e Bolívia também estão com dificuldades. A esquerda não teve êxito nas eleições no Peru, recentemente. E a chamada esquerda no Chile, da presidente Michelle Bachelet, está com grandes dificuldades por várias razões e as previsões são de que, talvez, um governo mais à direita vai ser eleito nas próximas eleições no Chile”.
Para tentar evitar que o mesmo caminho ocorra no Brasil, o PT já anunciou através do presidente da legenda Rui Falcão, que vai apoiar candidatos de outros partidos progressistas que estejam no segundo turno das eleições municipais, onde o PT já não participa da disputa. “Estamos orientando nossa militância a apoiar incondicionalmente as candidaturas do PSOL, do PCdoB, da Rede, do PDT nas capitais, para que em cada município, os diretórios vejam a quem não devemos conceder nenhum voto ou apoio. Vamos dedicar nosso empenho às sete cidades que estamos disputando o segundo turno (Juiz de Fora, Anápolis, Santa Maria, Santo André, Mauá, Vitória da Conquista e Recife)”.
O PT reuniu, no último dia 6, a comissão executiva da sigla para discutir o fracasso eleitoral e, de acordo com Rui Falcão, o impeachment e a crise econômica explicam, em tese, o mau resultado. No entanto, o petista afirma que o partido é vitima de uma “ofensiva terrível” das forças conservadoras do país. “As forças conservadores fecharam uma ofensiva terrível contra nós. E ela se estendeu até os últimos dias da campanha eleitoral. Dois dias antes da eleição o Moro (Sergio Moro, Juiz Federal) transformou a prisão provisória do Palocci em prisão preventiva. Já tinham prendido o Guido (Mantega) antes. Duas ações transformando o Lula em réu. Enfim, uma campanha de massacre que naturalmente acabou culminando em produzir um resultado eleitoral”.

Líder do Democratas no Senado, e um dos principais nomes de oposição ao PT, o senador Ronaldo Caiado rebateu as afirmações de Rui Falcão. Para ele, a derrota eleitoral do PT não é fruto de uma “campanha conservadora”, mas, sim, resultado dos escândalos de corrupção protagonizados pelo partido. “As pessoas quando não têm uma explicação lógica, tentam responsabilizar os outros. Esse é o método petista. De repente, o cidadão é corrupto, criminoso, assaltante do dinheiro público e ele diz que isso é um preconceito de uma classe conservadora. Quer dizer que prender ladrão é preconceito de alguma classe? Não. É exatamente o cumprimento da Lei. O fato determinante da derrota foi, exatamente, a quadrilha do partido que dilapidou todo o patrimônio do país e consequentemente de todos os brasileiros”.
Tanto para David Fleischer, como para Bruno Garschagen, caso o PT não se recupere nas próximas eleições, os políticos da sigla podem deixar o partido ou mesmo refunda-lo com outro nome.

Nesta semana, o petista e ex-governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, concedeu entrevista ao jornal O Globo, onde disse que o PT precisa impulsionar a formação de uma nova frente de esquerda, na qual o partido não tenha necessariamente a hegemonia automática”. Segundo ele, isso significa “compreender que o

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