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Em tempos de Covid-19, o “burnout médico” entra como sinal de alerta na Medicina

Por Geraldo Eduardo de Faria

Com a pandemia do novo coronavírus, as empresas no mundo todo tiveram que adaptar suas rotinas a uma nova e desafiante forma de trabalho: o remoto. Já na área da saúde, a sobrecarga de atividades tem levado vários profissionais à exaustão física e mental. A incidência da Síndrome de Burnout – SB, no mundo, está presente em cerca de 50% dos médicos, sendo que um terço deles é afetado de maneira considerável, e um décimo de forma grave. Segundo a OMS – Organização Mundial da Saúde, o problema afeta mais de 33 milhões de pessoas.

A Urologia é uma das dez especialidades com maior ocorrência da Síndrome de Burnout, figurando em primeiro lugar quando o critério é a gravidade dos sintomas. No último congresso da American Urological Association, realizado no ano passado em Chicago, esse tema foi destaque em uma das sessões plenárias dada a importância e incidência de casos. Sem dúvida, o assunto merece reflexão e constitui um desafio a ser enfrentado pelas sociedades médicas, que deverão incluí-lo obrigatoriamente na pauta de seus próximos congressos.

O termo foi utilizado pela primeira vez em 1974 por Herbert Freudenberger, psicanalista alemão, quando observou que seu trabalho já não lhe trazia o mesmo prazer de outrora, relacionando a sensação de esgotamento à falta de estímulo originado da escassez de energia emocional. Além desses sintomas, ele incluiu fadiga, depressão, irritação e inflexibilidade.

Já em 1981, as psicólogas americanas Christina Maslach e Susan Jackson classificaram a SB como decorrente de um estresse intenso e contínuo provocado pelo trabalho. Em 1999, Christina Maslach e Michael Leiter criaram o Maslach Burnout Inventory (MBI) e deram à SB sua definição e caracterização final: uma síndrome ligada ao trabalho caracterizada por exaustão emocional, despersonalização e falta de realização profissional.

Pesquisa realizada em 1998, pela Canadian Medical Association, analisou as respostas de 3.520 profissionais que atuavam no Canadá e identificou um cenário preocupante: 62% opinaram que tinham uma carga de trabalho muito pesada; 55% relataram que sua família e vida pessoal estavam deterioradas porque tinham escolhido a Medicina e 65% tinham desejo de mudar de profissão.

Em 2017, a revista The Lancet publicou um editorial intitulado “Suicide among health-care workers: time to act” afirmando que, no Reino Unido, o burnout médico atingiu proporções epidêmicas e que o problema não era exclusivamente britânico. Nos EUA, por exemplo, havia uma taxa de suicídios de 400 médicos por ano, marca superior ao dobro das ocorrências entre a população geral. Os sintomas de burnout e de arrependimento na escolha da carreira são comuns entre os médicos residentes do segundo ano (R2) nos EUA, variando de acordo com a especialidade.

Estudo publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA) indicou que, no geral, 45% dos residentes R2 relataram sintomas de burnout e 14% sentiam-se arrependidos de terem escolhido a carreira médica. As causas estavam relacionadas com jornada de trabalho estressante por alta carga de dedicação semanal, baixa remuneração, interferência de planos de saúde em suas condutas, condições de trabalho ruins no setor público e ausência de margem mínima de erro, além de constantes ameaças de processos e agressões contra os médicos.

Da mesma forma, o relatório Medscape 2018, que avaliou o estilo de vida e a incidência de burnout médico no Brasil, confirmou estas queixas e acrescentou outros agravantes, como desrespeito por parte dos chefes, empregadores e pacientes, além de excesso de tarefas burocráticas.

Dr. Geraldo Faria é presidente da Sociedade Brasileira de Urologia de São Paulo. Membro Titular da Sociedade Brasileira de Urologia, Membro Internacional da AUA – American Urological Association, Membro da EAU – European Association of Urology.