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No Dia Nacional da Onça-Pintada, entenda como armadilhas fotográficas podem ajudar na conservação da espécie

Câmeras ajudam no monitoramento da onça-pintada na Amazônia. Espécie é considerada sob risco

Registros de armadilhas fotográficas instalados na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (Imagem: GP Felinos/Instituto Mamirauá)

“Um censo dos vivos, não um registro dos mortos”, disse Frank Chapman sobre as armadilhas fotográficas, em 1920. Na época, os inventários de fauna eram feitos através de capturas letais dos animais. As chamadas cameras traps se apresentavam, então, como alternativa para o desenvolvimento do trabalho dos biólogos e ecólogos.

Os primeiros equipamentos foram desenvolvidos e utilizados por caçadores e aficionados por vida selvagem e, ao longo do século, as armadilhas fotográficas se consolidaram como um método considerado atualmente de grande importância para pesquisas que visam a conservação da biodiversidade.

Com os dados obtidos pelas câmeras, é possível fazer estimativas populacionais das espécies, dados essenciais para verificar o nível de risco de extinção da fauna. Além disso, pode-se analisar o modo como os animais ocupam o espaço e, a partir disso, identificar possíveis perigos para a espécie.

“Saber a abundância das espécies, como elas se distribuem no ambiente e quais fatores influenciam nessas medidas é um dos estágios primários das pesquisas de conservação”, afirma Daniele Barcelos, pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Ecologia e Conservação de Felinos na Amazônia do Instituto Mamirauá, organização social fomentada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), e que conta com apoio da Fundação Gordon e Betty Moore.

Amanhã, dia 29, comemora-se o Dia Nacional da Onça-Pintada. Entenda como as armadilhas fotográficas ajudam na conservação do maior felino das Américas, espécie considerada sob risco.

Método eficaz para conservação da onça-pintada na Amazônia

Classificada pelo ICMBio como vulnerável, a onça-pintada (Panthera onca) sofre ameaças relacionadas à perda e fragmentação de habitat associados à expansão agrícola, mineração, implantação de hidrelétricas, ampliação da malha viária e à eliminação de indivíduos e de suas presas por conta da caça.

Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, unidade de conservação localizada na região do Médio Solimões, na Amazônia Central, o animal é objeto de estudo de pesquisas que visam subsidiar estratégias de conservação da espécie no bioma amazônico.

Para monitorar e colher os dados, as armadilhas fotográficas são usadas pelos pesquisadores desde 2004.

Outros métodos existem, mas, dentre as opções, a armadilha fotográfica é o mais eficaz.

Um deles é chamado de transecto, quando o pesquisador realiza focagens nos indivíduos ou busca por vestígios da presença da espécie em trilhas previamente definidas; o outro é a captura e marcação dos animais.

Em relação às trilhas, as câmeras têm a vantagem de funcionar 24 horas, oferecendo assim maior número de dados em menor período de tempo, e, em comparação com a captura, tem o benefício de não envolver interação com o animal, que pode estressá-lo.

O único esforço em campo, explica Daniele, é instalar as armadilhas e depois voltar ao local para buscá-las.

“A onça tem uma área de vida muito extensa, então para conseguir estimar a população é necessário realizar amostragens em áreas muito grandes. Além disso, é uma espécie mais elusiva, ou seja, de difícil avistagem, e existe em baixa densidade populacional. Por isso, armadilha fotográfica é uma evolução no método para estimar a população”, afirma a pesquisadora.

Para isso, é preciso identificar cada indivíduo fotografado. A distinção é feita pelos pesquisadores na análise dos registros fotográficos com base em características únicas dos animais: no caso da onça-pintada, as manchas da onça, chamadas de rosetas. “São únicas, como nossas impressões digitais”, diz.

Daniele investiga os padrões de ocupação do habitat por mamíferos de médio e grande porte na área. A pesquisa conta com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e visa identificar os espaços onde os mamíferos estão mais presentes, quais as tendências e diferenças entre espécies no uso do ambiente e que fatores influenciam esses padrões – avaliando assim, possíveis efeitos de ações humanas e outras interações entre espécies no habitat.

Um dos seus objetivos será verificar, por exemplo, a influência do turismo na Reserva Mamirauá no uso do espaço pelos mamíferos.

Como funciona

A armadilha fotográfica possui uma câmera digital ligada a um sensor de movimento e temperatura. Quando o sensor detecta o movimento de algum animal com uma temperatura diferente da do ambiente ao redor, a câmera é ativada e começa a fotografar.

O equipamento, programado para funcionar dia e noite, fica dentro de uma caixa de proteção e é resistente a chuva, vento, calor e umidade.

Na Reserva Mamirauá, cada estação fotográfica conta com duas câmeras posicionadas uma de frente para a outra, com uma isca de mistura caseira de ovos e sardinha no centro. O objetivo da isca é atrair os animais que estão por perto e posicioná-los de modo que as câmeras consigam fotografar os dois lados do animal.

Tecnologia pela conservação da biodiversidade

Comprovados os benefícios do uso de armadilhas fotográficas, cientistas de diversas partes do mundo passaram a aprimorar os equipamentos na busca de melhores e mais rápidos resultados.

Antes analógicas e de difícil manutenção, as câmeras passaram por adaptações tecnológicas que permitiram facilidades como maior duração de bateria e flash infravermelho para fotografias noturnas.

Atualmente, os pesquisadores buscam o desenvolvimento de algoritmos que ajudem a automatizar a análise dos registros fotográficos. As manchas de cada onça, por exemplo, poderão ser identificadas e comparadas automaticamente por softwares especializados.

Entre as iniciativas, o projeto Providence é uma ferramenta que visa implementar uma tecnologia para monitorar em tempo real as informações obtidas por uma rede de sensores de alta tecnologia de armadilhas fotográficas e aparelhos de bioacústica. O programa é uma iniciativa do Instituto Mamirauá em parceria com diversas organizações internacionais.

Aliança Onça-Pintada

Visando realizar pesquisas para melhorias na conservação da onça-pintada, 13 instituições formaram a Aliança para a Conservação da Onça-Pintada. O grupo agrega organizações brasileiras e internacionais com atuação em outros países da Amazônia.

“A ideia é que a gente possa fazer ações coordenadas de conservação e de pesquisas para ter informações básicas, úteis e aplicáveis em curto prazo”, explica o especialista em onça-pintada e diretor técnico-científico do Instituto Mamirauá, Emiliano Ramalho.

Texto: Júlia de Freitas
Foto: Divulgação

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