Desenvolvido em parceria da Unicamp com o IPT, estudo envolve o uso de ferramenta genética e nanotecnologia

Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que conta com a expertise do Laboratório de Biotecnologia Industrial do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) para implantar sua aplicação, está buscando as bases de uma nova nanopartícula para o tratamento do glioblastoma, um tipo de câncer cerebral. Por meio da técnica conhecida por RNA de interferência, ou RNAi, a ideia é impedir a formação de proteínas necessárias às células tumorais para a sua proliferação ou mesmo sobrevivência, o que pode, na prática, diminuir ou evitar o crescimento de tumores.

O glioblastoma é o tipo mais comum de câncer cerebral, representando cerca de 25% dos tumores cerebrais primários, e recebe esse nome por ter início na glia, que são células não neuronais do sistema nervoso central que proporcionam suporte e nutrição aos neurônios. O RNA, ou ácido ribonucléico, é uma molécula produzida a partir do DNA e o produto intermediário para que a informação genética seja fornecida pelo corpo como proteínas.

A técnica aplicada por Cyro von Zuben de Valega Negrão, aluno de doutorado pelo programa de Genética e Biologia Molecular do Instituto de Biologia da Unicamp, participante do programa Novos Talentos do IPT e responsável pela pesquisa, busca como princípio ativo do fármaco pequenos fragmentos de RNA (siRNA, do inglês small interfering RNA) capazes de degradarem a sequência completa dos RNAs dos genes alvos das células de glioblastoma. O princípio ativo seria encapsulado em nanopartículas, o que auxiliaria na condução do medicamento ao tumor.

“Degradando o RNA, podemos impedir a produção de proteínas fundamentais ao desenvolvimento da célula”, completa o pesquisador. “Nós temos como alvos principais hoje proteínas que permitem a proliferação e sobrevivência das células, além das que estimulam a angiogênese, que é capacidade de criar vasos – são eles que alimentam e fornecem oxigênio a essas estruturas. Coibindo a produção das proteínas, o tumor pode parar de crescer, ou mesmo diminuir, já que suas células não estarão recebendo nutrientes” esclarece Negrão.

Segundo o aluno, o estudo também engloba genes alvos que são responsáveis pela resistência de fármacos consolidados hoje no mercado, possibilitando, dessa forma, que esses possam recuperar a eficiência anterior.

O trabalho do Cyro, que se iniciou em 2018, é orientado pelo professor Henrique Marques-Souza, da Unicamp, e coorientado pela chefe do laboratório do IPT, Natália Neto Pereira Cerize, além de ter o apoio da pesquisadora Patrícia Leo, também do Instituto. O trabalho tem previsão de conclusão entre 2021 e 2022 e conta também com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Fundação de Apoio ao Instituto de Pesquisas Tecnológicas (FIPT).