Pesquisa pode beneficiar economia do Amazonas

Pesquisadores estão testando resíduos agroflorestais e madeireiros como substrato para a produção de enzimas que podem ser utilizadas em larga escala industrial

Resíduos madeireiros e agroflorestais como cascas de vegetais e de madeiras que normalmente são descartados no meio ambiente depois de processamentos industriais, futuramente, podem se tornar um negócio lucrativo também para a indústria de alimentos no estado do Amazonas, é o que diz o doutor em biotecnologia, Rafael Lopes e Oliveira.

Para o pesquisador o reaproveitamento desses resíduos sólidos pode ser rentável para a região porque esses resíduos que são desprezados sem nenhum tratamento depois de processos industriais podem ser convertidos em fontes potenciais de biomassa (produzida a partir de matéria orgânica, de origem vegetal ou animal, e utilizada na produção de energia), e, posteriormente, podem ser utilizados como substrato na potencialização de processos fermentativos para obtenção de enzimas microbianas, que são amplamente utilizadas pelas indústrias. Essas substâncias podem ser produzidas e comercializadas e, dessa forma, devem contribuir para o desenvolvimento econômico e sustentável da região.

E pensando em dar uma destinação sustentável a esses resíduos sólidos e ainda gerar rentabilidade, um grupo de pesquisadores do Grupo de Pesquisa Química Aplicada à Tecnologia, sediado na Escola Superior de Tecnologia da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), começou a investigar se é possível produzir celulase utilizando como substrato resíduos de abacaxi da região de Itacoatiara-AM.

“Celulase é uma enzima que acelera uma reação específica em material orgânico como materiais madeireiros, resíduos de plantas, resíduos que tem basicamente celulose em sua composição. Essas enzimas são biocatalisadores altamente específicos que atuam em sinergia para a liberação de açúcares, dos quais glicose é o que desperta maior interesse industrial, devido à possibilidade de sua conversão em etanol”, explica o pesquisador.

Experimento – Uma das etapas da investigação científica passa pela produção de um substrato a partir da fermentação das cascas do abacaxi (resíduo orgânico) pela ação de um grupo de bactérias, conhecidas como Actinobactérias, em especial do gênero Streptomyces capuamus, que foi estritamente isolada pelos pesquisadores para a observação desse experimento. Os pesquisadores estão analisando se essas bactérias são capazes de produzir celulase que pode ser utilizada em escala industrial.

“O processo de produção do substrato é simples. Nós pegamos o resíduo sólido (casca do abacaxi) de uma indústria de processamento da fruta e trazemos para o laboratório. As cascas são dissecadas, desidratadas, trituradas, moídas e peneiradas. Em seguida, é acrescentada uma solução salina, e o substrato estará composto podendo ser utilizado como meio de cultura. A esse substrato são inoculadas as Actinobactéria Streptomyces capuamus que irão crescer e se desenvolver. Em uma semana, nós teremos enzimas disponíveis para fazer os testes”, disse Rafael.

O pesquisador explica que o substrato é produzido a partir de resíduo orgânico utilizado no processo fermentativo junto com micro-organismos, e a ação desses micro-organismos são capazes de produzir as enzimas que são comumente usadas pelas indústrias de um modo geral.

“Esses micro-organismos produzem enzimas que exercem papel importante em processos industriais com alto valor econômico e sustentável agregados”, destacou Rafael.

Apoio da Fapeam – A pesquisa é desenvolvida com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), através do Programa de Apoio à Pesquisa – UNIVERSAL AMAZONAS, EDITAL Nº 002/2018.

O objetivo é que a partir da produção dessas celulases os pesquisadores consigam observar ao longo dos experimentos se essas bactérias conseguiram gerar enzimas capazes de produzir insumos que futuramente serão utilizados nas indústrias de biocombustíveis, alimentos, bebidas, papel, produtos de limpeza, tecidos e etc.

“As enzimas, em especial as celulases se destacam entre os biocatalizadores por serem a mais produzidas e utilizadas mundialmente pelas indústrias”, informou Rafael.

Mercado promissor – Para o pesquisador, devido à alta aplicabilidade biotecnológica, a tecnologia enzimática se apresenta como uma opção bastante interessante e rentável para a exploração econômica uma vez que enzimas são moléculas químicas que têm a capacidade de acelerar reações ou de transformar o seu substrato.

“O mercado de enzimas hoje é um mercado muito promissor. Hoje grande parte, certamente mais de 60%, da produção mundial de enzimas está na mão de uma única empresa dinamarquesa chamada Novozymes, ou seja, ela movimenta vários bilhões de dólares por ano com a produção de enzimas”, destacou Rafael.

Vantagem econômica – Na indústria, as enzimas são usadas em vários processos químicos. E o estudo desses pesquisadores pretende apontar que a reutilização de resíduos sólidos pode se tornar uma oportunidade de bons negócios com vantagem econômica para empresas que trabalham com o beneficiamento do fruto no Amazonas.

“Um dos objetivos do projeto é estabelecer uma alternativa nobre para os resíduos gerados nas agroindústrias da região de Itacoatiara, criando assim um novo segmento econômico para aquele município”, informou Rafael.

Para Rafael os resultados da pesquisa obtidos através das sobras do abacaxi são promissores. A ideia é apontar uma solução ambiental para o tratamento de resíduos sólidos através de investimento biotecnológico, além de indicar uma possibilidade para o desenvolvimento econômico e sustentável da região

“Em princípio nós observamos que o resultado do estudo é promissor. Nós percebemos que o resíduo de abacaxi estimula bastante a produção de enzimas”, informou Rafael.

Produção de abacaxi no Estado – De acordo com o Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (Idam), o estado do Amazonas participa com 4% da produção do abacaxi do Brasil e na região.

O levantamento da Produção Agrícola Municipal (PAM), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontou o município de Itacoatiara no Amazonas, como o maior produtor da fruta, com destaque especificamente para a região de Novo Remanso.

Segundo o Idam, estima-se que em 2018 a produção de abacaxi no Amazonas alcançará cerca de 90 milhões de frutos, cultivados por aproximadamente 3.900 produtores, sendo que 75% desta produção concentra-se no município de Itacoatiara/região de Novo Remanso.

Cooperativas – Existem duas cooperativas formais que representam os produtores de abacaxi, (Coopanore e Ascope) e, duas agroindústrias de beneficiamento de polpas de frutas (Uni Fruit e Ascope) que processam boa parte da produção de abacaxi nessa região, com potencial de 400 toneladas de armazenamento.

De acordo com o Idam a produção de abacaxi no Estado do Amazonas cresceu 63% entre os anos de 2010 a 2012. O valor da produção do fruto foi responsável por 10,5% das culturas temporárias no estado em 2011. Os 62,3 milhões de frutos produzidos em 20 anos levaram o Amazonas a o norte contribui com 17%, o que o coloca como segundo maior produtor de abacaxi do norte (IBGE – PAM ocupa a oitava posição no ranking nacional, sendo que há dez/2014).

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