Queimadas são desafio para novo presidente na preservação da Amazônia

Operação Cielo reduz focos de queimadas na Região Metropolitana de Manaus

Em sobrevoo realizado no início de outubro, Greenpeace identificou que neste ano as queimadas se concentram no oeste da Amazônia, com áreas consumidas pelo fogo inclusive dentro de áreas protegidas; em Rondônia aumento foi de 200%

Manaus, 22 de outubro de 2018 – A Amazônia continua a encolher todos os anos e, parte dessa perda, se dá pelo fogo, que além de oferecer risco para as populações locais e aos animais, contribui para o aumento das emissões de gases do efeito estufa do Brasil. Em 2018, apesar da tendência geral de queda no número de focos de calor na Amazônia Legal, estados críticos registraram mais fogo. Eliminar as queimadas é um desafio que terá de ser enfrentado pelo próximo presidente eleito. No entanto, entre os candidatos, Jair Bolsonaro (PSL) têm propostas opostas ao que tange à preservação da floresta e o enfrentamento das mudanças climáticas.

Na primeira semana de outubro, final da temporada de fogo na Amazônia, o Greenpeace registrou a destruição deixada pelas queimadas na região entre os estados do Amazonas, Acre e Rondônia, onde encontrou focos ainda ativos e diversas áreas que já viraram cinzas.

Em Roraima, o crescimento foi de 200% no período de janeiro a setembro de 2018, na comparação com o mesmo período de 2017, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (INPE). No Acre, o número de focos subiu 28% no mesmo período, enquanto nos estados do Amazonas e de Rondônia, o número de focos permaneceu estável, alcançando o patamar de mais de 9 mil focos cada.

Durante o sobrevoo, foram identificados focos ativos e diversas cicatrizes de fogo, especialmente no entorno e dentro de áreas protegidas, como terras indígenas e unidades de conservação, que representam um grande risco à sua preservação. Em Careiro da Várzea (AM), um grande incêndio consumia parte da Terra Indígena Sissaíma, da etnia Mura. No sul do estado, em torno da terra indígena Tenharim Marmelos, próximo de Humaitá, o fogo deixou inúmeros rastros de destruição. Assim como no Acre, na Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes e diversas outras áreas no entorno de Rio Branco. Em Rondônia, marcas de queimadas recentes também apareceram em profusão, inclusive dentro da terra indígena do povo Karipuna, que vem sofrendo forte pressão externa.

Além dos recorrentes focos de incêndio nas pastagens, foi possível verificar um forte processo de conversão das florestas degradadas. Desde 2016, houve uma inversão no tipo de área em que se concentram os focos de calor: se antes os incêndios aconteciam em áreas desmatadas, como pastagens, agora o fogo se alastra majoritariamente sobre floresta em pé. Em 2015, o número de focos em pastagens e em florestas eram quase iguais, isso começou a mudar em 2016. E 2017 confirmou esta tendência, as florestas concentraram 53,57% dos focos de calor, enquanto as pastagens reuniram 42,61% e as áreas desmatadas, 3,82%. Isso acontece, em parte, devido ao aumento da degradação florestal, que deixa a floresta mais suscetível ao fogo.

No acumulado, a Amazônia já perdeu cerca de 19,4% de sua cobertura florestal original.

“Esse é o reflexo de um modelo de desenvolvimento adotado para região que, ao longo do último meio século, substituiu florestas por agricultura, pecuária e geração de energia hidrelétrica em grande escala. O candidato que lidera a corrida presidencial já declarou que pretende tirar o Brasil do Acordo de Paris e que tomará medidas para enfraquecer a fiscalização de crimes ambientais, o que deixará a Amazônia ainda mais vulnerável e o Brasil comprometido com as metas para redução de emissões”, afirma Danicley de Aguiar da Campanha de Amazônia do Greenpeace Brasil.

Um estudo publicado na revista Nature aponta que as mudanças climáticas estão alterando os padrões globais de queimadas e devem gerar um aumento na temporada de incêndios nas próximas décadas, de 1979 a 2013, o período anual de queimadas já ficou 18,7% maior. Sob as novas condições climáticas do século XXI, as florestas degradadas podem se tornar cada vez mais secas e suscetíveis a incêndios florestais. De janeiro a setembro de 2018 foram identificados 46.527 focos de calor no bioma Amazônia, segundo o INPE.