Pesquisa sugere que exames podem ser adiados por 5 ou até 15 anos após o diagnóstico, rastreios anteriores podem ser encargos desnecessários
Um novo estudo descobriu que a ocorrência das formas avançadas da doença ocular diabética permanece baixa entre as crianças que vivem com diabetes, independentemente de quanto tempo elas têm a doença ou da sua capacidade de manter os níveis de açúcar no sangue controlados. Os pesquisadores estão, portanto, recomendando que as crianças com diabetes tipo 1 só passem por triagens anuais para retinopatia diabética, depois de 5-15 anos após o diagnóstico do diabetes.

A retinopatia diabética é a principal causa de cegueira entre adultos em idade laborativa nos Estados Unidos e afeta cerca de 8 milhões de pessoas. A Academia Americana de Oftalmologia recomenda atualmente que as pessoas com diabetes tipo 1 façam exames anuais de rastreio para retinopatia diabética após 5 anos do diagnóstico de sua doença, e que as pessoas com diabetes tipo 2 façam o exame de rastreio no momento do diagnóstico e, pelo menos, uma vez por ano depois disso.

“Está bem estabelecido que a detecção precoce e o tratamento oportuno da retinopatia diabética reduzem o risco de perda de visão em adultos e algumas organizações médicas recomendam a triagem de crianças para retinopatia diabética anualmente a partir de uma idade precoce – após 9 anos de idade ou a partir de 3-5 anos após o diagnóstico. No entanto, o valor da triagem em crianças não tem sido claramente documentada e a prevalência da retinopatia diabética grave entre os jovens não é clara”, afirma o oftalmologista Virgílio Centurion (CRM-SP 13.454), diretor do IMO, Instituto de Moléstias Oculares.

Com esse problema em mente, os autores do estudo começaram a questionar as orientações atuais de rastreio da retinopatia diabética em crianças. Eles desejavam saber se esses exames anuais poderiam criar encargos financeiros e logísticos excessivos para as famílias e para o sistema de saúde.

Os pesquisadores realizaram um estudo retrospectivo com 370 crianças menores de 18 anos com diabetes tipo 1 e tipo 2. Algumas das participantes do estudo tinham níveis de açúcar no sangue três vezes maior do que uma pessoa sem diabetes. Todas tinham feito pelo menos um exame de triagem para a doença ocular diabética entre 2009 e 2013, mas em nenhuma foi encontrado retinopatia diabética.

Os pesquisadores então examinaram os dados que levaram às diretrizes de rastreio atuais. Eles descobriram que estudos anteriores relataram uma taxa de prevalência de retinopatia diabética entre 0-28% entre as crianças estudadas, mas a maioria dos casos foram muito leves e, portanto, não se qualificariam para o tratamento. Eles também descobriram que as pessoas mais jovens que informaram ter retinopatia diabética grave tinham entre 15 e 19 anos, e 5 a 6 anos foi o menor período de tempo relatado entre ter diabetes antes de desenvolver a retinopatia diabética severa.

“À luz das evidências disponíveis, os pesquisadores recomendam que a triagem de crianças com diabetes tipo 1 pode começar numa idade mais avançada do que o recomendado anteriormente. Muitos dos nossos jovens pacientes com diabetes, a cada ano, se submetem a exames que consistentemente não mostram nenhum sinal da doença. Claro, isso é uma boa notícia para eles, e é muito importante fazer exames anuais oftalmológicos, uma vez que o risco de perda de visão é real. Mas, vale a pena a carga sobre o sistema de saúde e sobre a família, se as evidências mostram que a retinopatia diabética não necessita de tratamento em fases iniciais e mais brandas”, afirma o oftalmopediatra Fabio Pimenta de Moraes (CRM-SP 124.321), que também integra o corpo clínico do IMO.

“Os autores do estudo defendem que as exceções devem ser feitas para crianças com diabetes tipo 2 e aquelas identificadas por seus endocrinologistas como tendo alto risco de complicações diabéticas. Essas devem começar os exames de triagem de retinopatia diabética mais cedo, semelhante aos adultos com diabetes tipo 2, uma vez que muitos pacientes com diabetes tipo 2 vivem com a doença não controlada antes de serem diagnosticados”, destaca o oftalmopediatra.