Take a fresh look at your lifestyle.

Sobre plásticas em adolescentes e aplicativos de cirurgia plástica: o que mais vem por aí?

-publicidade-

Em geral, estamos muito receptivos ao mundo que nos rodeia e à tecnologia… Mas de vez em quando, surge algo que é tão terrível, “que nos sacode” e nos permite refletir sobre velhos temas, como a cirurgia plástica em adolescentes, uma prática em alta, sem limites, sem controle…
Em janeiro de 2014, nos deparamos com bizarro aplicativo que encorajava crianças a realizarem cirurgias plásticas virtuais em uma boneca Barbie. O jogo, chamado “The Plastic Surgery & Plastic Doctor & Plastic Hospital Office for Barbie”, era indicado para crianças a partir de 9 anos e as encorajava a usar seringas e bisturis para “corrigir áreas problemáticas” da boneca. Entre as “atividades” propostas estavam injetar anestesia, fazer incisões com o bisturi e sugar a gordura com uma bomba. Estes processos poderiam ser repetidos em diversas partes do corpo da Barbie. A descrição do jogo era ainda mais perturbadora: “esta infeliz garota tem tanto peso extra que nenhuma dieta consegue ajudá-la. Em nossa clínica ela pode passar por uma cirurgia chamada lipoaspiração que a deixará magra e linda. Nós precisamos fazer alguns pequenos cortes em áreas problemáticas e sugar a gordura extra. Você nos ajudará a operá-la?”. A descrição e o uso do aplicativo geraram revolta na internet e as duas versões disponíveis do aplicativo foram tiradas do ar, mas ainda é possível ver neste vídeo os detalhes absurdos da proposta: https://www.youtube.com/watch?v=4oPGx8q5zFc .

“O fato de o aplicativo ter sido retirado do ar é positivo, mas não é uma vitória. É uma oportunidade vital para pararmos e perguntarmos como isso pode ter acontecido. Como é que chegamos ao ponto em que os desenvolvedores de jogos foram capazes de criar um aplicativo que diz que coisas tão prejudiciais para a saúde mental das meninas? O que realmente importa não é o aplicativo, em si, mas o contexto social e cultural que permitiu o seu surgimento”, afirma o cirurgião plástico Ruben Penteado, diretor do Centro de Medicina Integrada (CRM-SP 62.735).

Porque este aplicativo nunca teria sido concebido, nem sequer teria sido sonhado em um mundo em que estivéssemos enviando outras mensagens às mulheres e às meninas. “A mensagem de que seus corpos são a soma total do seu valor e que não devem estar em conformidade com um ideal incrivelmente estreito de beleza”, diz o médico.

Mas o que vemos não é isso…

· Numa pesquisa recente, publicada no Reino Unido, revelou-se que “meninas de cinco anos de idade estão preocupadas com sua aparência e com o seu peso”. E “uma em cada quatro meninas de sete anos de idade já tentou perder peso, pelo menos uma vez”;
· Sites ensinam meninas a se beliscar para se livrar da celulite;
· Um jornal ainda, em 2014, encontra méritos na ideia de usar a edição de imagem nos seios das mulheres, em todas as suas páginas, quase todos os dias;
· Sites desumanizam as mulheres, dando-lhes notas de um a dez, com base em sua aparência, de modo que elas se tornam um número em vez de uma pessoa.

“As pessoas reagiram com choque em relação ao aplicativo de cirurgia plástica, mas elas não devem ter ficado realmente surpresas, pois nos acostumados com o que está acontecendo com as meninas e as mulheres em todo o mundo”, avalia o diretor do Centro de Medicina Integrada.

Cirurgias plásticas em adolescentes

Como resultado da nossa ação ou da nossa omissão em cada caso mencionado acima, as mulheres jovens se sentem inseguras, pressionadas pela mídia para ter o “corpo perfeito”.

Logo, a cirurgia plástica para tratar de questões de insegurança do corpo pode ser mais comum do que a terapia, defende a Associação Britânica de Cirurgiões Plásticos Estéticos (BAAPS). A demanda para a cirurgia plástica de adolescentes não é nova. Em 2005, uma pesquisa de uma revista de 2.000 adolescentes constatou que 40% das meninas tinha considerado a cirurgia plástica. Desde então, porém, a indústria cresceu cinco vezes, por lá, um aumento que ainda foi afetado pelo escândalo dos implantes mamários PIP, em 2012.

Em abril do ano passado, um relatório do governo do Reino Unido descobriu que 41% das meninas com idades entre 7 e 10 anos e 63% com idades entre de 11 e 16 anos disseram que sentiram alguma pressão em relação à aparência das celebridades, sugerindo que a cirurgia plástica tinha se tornado “normalizada” em busca de um corpo perfeito.

“Um levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica analisou o número de plásticas feitas por adolescentes de 13 a 18 anos. Entre 2008 e 2012, esse número mais do que dobrou, o aumento foi de 141%. Em quatro anos saltou de 37 mil para 91 mil cirurgias. A lipoaspiração está no topo da lista, seguida pela prótese nos seios, para aumento das mamas”, informa Ruben Penteado, que é membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

Regras para adolescentes?

“Semelhante a outros procedimentos ‘permanentes’, como as tatuagens, qualquer cirurgia em menores de 18 anos precisa do consentimento dos pais, embora haja uma área cinzenta depois dos 16 anos, em que os pais não podem insistir ou interferir diretamente no tratamento. Diretrizes sugerem que os adolescentes devem ter atingido certos marcos no crescimento e na maturidade física, bem como maturidade emocional para terem consciência de que a cirurgia plástica não é uma panaceia para todos os males”, defende o cirurgião plástico. Ativistas defendem que mais deve ser feito para parar impedir que a mídia incentive a glamourização de corpo irrealistas. Por enquanto, o que sabemos da prática cirúrgica é que a cirurgia estética é cada vez mais a resposta para mulheres e homens jovens que querem “melhorar” seus corpos.

-publicidade-