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Streaming é cultura e cultura é direito

Por Jake Neto (*)

A “sopa de letrinhas” gerada pelo excesso de tributos (como, por exemplo, IPVA, IPTU, ICMS, IOF, ISS, e outros tantos) não é um prato que sirva bem à renda familiar de um país como o Brasil, especialmente em um delicado momento econômico. E, tampouco, contribui para o acesso da população à cultura, entretenimento de qualidade e eventos do gênero, já problemáticos em razão própria desigual distribuição cultural. Segundo o IBGE, as regiões metropolitanas concentram 41% de todo o consumo da cultura do Brasil.

Um brasileiro que vive com o salário mínimo, hoje estabelecido em R$ 998, para ir ao cinema apenas uma vez por mês irá gastar, no mínimo, 3% de seus vencimentos, já que valor mais baixo do ingresso no país, segundo levantamento do Cuponation, é de R$28,61. Além disso, esses 3% levam em conta apenas se o espectador for sozinho e não comprar nenhum tipo de bebida ou comida antes de entrar na sala.

Tal dificuldade de acesso à entretenimento de qualidade também pode ser transportada em uma análise fria sobre o comportamento do internauta brasileiro. Segundo a pesquisa Digital Brazil 2019, feita em parceria pela We Are Social e Hootsuite, aproximadamente 149 milhões de brasileiros estão conectados à internet (70,3% de uma população estimada em 212 milhões). Destes, apenas 7% (cerca de 10,5 milhões) acessam plataformas de VoD (Video on Demand), mais popularmente conhecidas como “canais de streaming”, tais como Netflix, Amazon Prime Video HBO Go e Globoplay, por exemplo.

A internet, principalmente após a chegada das redes sociais, é um espaço democrático de troca de conteúdos, informações e opiniões. E, se bem utilizada, ainda funciona como uma facilitadora ao acesso a quase todos os tipos de manifestações culturais. Mesmo à distância. É preciso, entretanto, que as plataformas ofertem serviços tendo conhecimento do real e complexo cenário econômico do Brasil e também do consequente aspecto financeiro de sua população.

Democratizar o alcance dos brasileiros a milhares de filmes e séries significa, antes de qualquer coisa, cortar restrições de qualquer natureza. Planos de internet que caibam no bolso das famílias, cessão a VODs cujo acesso não seja atrelado à assinatura de operadoras de TV a cabo e, também, claro, bom senso das empresas de streaming nos valores e sistemas de cobrança.

Exclusivo no mercado brasileiro e com estreia marcada para setembro, o Kinopop, por exemplo, busca a maior fatia da população local ativa em plataformas on-line: os 93% que ainda não assinam nenhum VOD. O intuito, ao cobrar uma mensalidade de R$ 15, é ampliar o acesso dos brasileiros a produções cinematográficas, em uma filmoteca com opções de todos os gêneros capaz de agradar às famílias, e não apenas individualmente, como uma sessão única de cinema. E sem limites de horário, de quantidade de vezes para assistir a determinado título e todas as outras vantagens disponibilizadas por qualquer plataforma.

A profusão de processos burocráticos, impostos e a ausência de retorno e contrapartidas ao povo brasileiro é algo, lamentavelmente, sistemático. Algo mutável apenas quando começarmos a pensar enquanto parte do contexto social. E, na qualidade de produtores culturais e disseminadores de conteúdo, para tentarmos inverter tal cenário, é necessário que tenhamos a capacidade de fazer algo para agregar valor a uma das tantas carências do nosso povo. Cultura acessível deveria ser uma premissa, e não uma luta.

*Jake Neto é VP Global of Sales and Licensing no Studio BKS

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